19/11/2017

Vinte de novembro. Comemorar o quê?

Estátua de Zumbi dos Palmares, Praça da Sé, Salvador, Bahia


“Em setembro, a Oxfam Brasil informou que o país ainda levaria sete décadas para equiparar o rendimento dos negros ao 
dos brancos. Segundo o estudo, os dois grupos só devem se igualar em 2089 – mais de dois séculos depois da Lei Áurea. 
Agora a projeção parece ter sido muito otimista. De acordo com a PNAD, a desigualdade voltou a crescer nos últimos 12 meses.” (Bernardo Mello Franco na Folha de São Paulo em 19/11/2017). 

Lá se vão cento e poucos anos desde que se começou a pensar sobre a possibilidade de não haver mais mão-de-obra escrava no Brasil. 
Fazem poucos meses que o assunto voltou à tona com as últimas propostas de relações de trabalho defendidas por latifundiários e empresas através seus representantes no poder legislativo. 
Tenho uma clara e angustiante sensação de que, se não houver reencarnação, eu terei passado pelo planeta sem ter experimentado o que é viver a vida de forma plena e natural, já que as estatísticas citadas no cabeçalho são tão desanimadoras. De qualquer forma, minha vida até aqui tem sido razoável por uns motivos, maravilhosa por outros.
É como se os negros, mesmo os mais bem sucedidos, carregassem preso ao tornozelo uma imaginária bola de ferro para que nunca se esqueçam do seu papel no planeta.
A pergunta que eu me repito noite e dia é que, se o primeiro ser humano nasceu em solo africano, por qual motivo esse continente ficou tão marcado pela exploração colonizadora, pelas guerras entre povos e tribos, pela miséria, fome, pestes e tantas outras mazelas humanas? A África deveria ser o espaço da consagração da humanidade, por que foi de lá que viemos, onde tudo começou. Mas não, a África e os nascidos por lá, os que foram obrigados a sair de lá para o resto do mundo e os que agora de lá saem num total desespero, parece que são para serem esquecidos pelo resto do planeta. Esquecidos nas mãos de outros negros que promovem um verdadeiro inferno em África, dando continuidade ao estilo de antigos colonizadores que em algum momento desistiram das suas colônias, mas deixaram uma cultura da opressão enraizada nas nações, de brinde. 

No Brasil também é assim. A cultura da escravidão está enraizada no nosso dia a dia, nos nossos condomínios, na nossa arquitetura de quartos de empregada e alojamento de zeladores, nas nossas relações  com nossos empregados domésticos e etc. A lista é grande, procure saber. Nessa cultura da escravidão enraizada dançam todos os negros de vários matizes, dançam os índios, os brancos e os que pensam que sāo brancos.
Com a palavra os historiadores, mas arriscaria dizer que somos hoje consequência do que o mercado, a política e a antiga Igreja Católica dos europeus brancos do século XVI escolheram para projeto de suas vidas. Se essa história se perpetua até hoje é porque o projeto ainda está em andamento.
Se essa é uma realidade que ainda se impõe em pleno século XXI, o que comemorar neste ainda contestado feriado do Dia da Consciência Negra? É sempre neste dia que alguns questionam que no Brasil tem muitos feriados.
Muitas coisas a comemorar, e a primeira delas, é a crescente consciência de negros e brancos sobre o racismo no Brasil. Hoje já é mais nítida a linha que separa brancos e negros quando o assunto sāo as oportunidades e o mercado de trabalho, e quanto mais nítida essa linha for, melhor para se resolver.  
A democracia racial foi pro espaço, mas podemos comemorar uma crescente integração racial proveniente dos laços afetivos entre brancos e negros, contra tudo e contra todos, nāo para “branquear a população”, tentativa de projetos do passado, mas que pode soar como uma reação aos que almejam um apartheid tupiniquim.  Aos que insistem na bobagem de dizer que negros procuram brancas respondo com a máxima com  qual sempre concordei, a mulher é quem escolhe.
Outro motivo de comemoração é a desmoralização de quem afirmou nos busdoors da vida que “não somos racistas”. Do mesmo lugar de onde saiu essa “pérola”, saiu o “coisa de preto”, outra “joia” do pensamento de alguns humanos. Comemoremos o imponderável ao nosso lado
Ficaram também mais nítidas e claras para nós as ideias e comportamentos identificados com o preconceito, mesmo que involuntários, não só por parte dos poderosos à distância, mas, principalmente, daqueles que vêm dos nossos amigos que estão próximos, brancos, negros e mestiços. Comemoremos.
É motivo de comemoração os maravilhosos resultados das políticas de inclusão, destaque para as cotas. Apesar do equivocado latido dos cães, a caravana da cultura, sabedoria, competência e dedicação de nossos cotistas segue em frente.
Hoje é para se comemorar finalmente, mas ainda não completamente, que intelectuais e partidos políticos têm o entendimento de que a questão central da história do Brasil, que impede transformar todos em unidos cidadãos brasileiros, é o nosso histórico de país escravagista que ainda está longe de tirar a palavra abolição do dia a dia dos debates.
É para se comemorar ainda a firmeza, a força, a fé e a estratégia usada por todo este contingente de mais da metade da população que trouxe, desde meados do século XVI até vinte de novembro de 2017, toda a história dos negros no Brasil, enfrentando os mais sofisticados meios que tentam, em vão, destruir uma cultura milenar que aparentemente sucumbe, mas que vai deixando ao longo dos séculos marcas que jamais poderão ser desfeitas e que  renascem a cada dia.
Comemorar que a indignação e coragem de Zumbi dos Palmares está viva em cada drible, em cada novo livro de escritor negro, entre as centenas de posts comemorativos do dia de hoje no Facebook, no Twitter, no Instagram nos blogs, e na história de cada negro vencedor que se destaca na sociedade em que vive.  
Hoje é para comemorar a presença da indignação de Zumbi em cada militante do movimento negro, unificado ou não, mas que nos remetem a heróis da resistência como os Malê na Bahia de 1835.
Está viva a indignação de Zumbi  em cada sambista de tradição e do novo samba que chega.  No toque de todo  batuqueiro, Ogã ou rapper paulista, tá ligado mano? Indignação viva na beleza de homens e mulheres negras. Beleza confirmada, assumida,
desejada, realizada, ainda negada por uns e outros. Beleza apropriada para alguns, compartilhada naturalmente para outros.

Por tudo isso hoje é dia de festa. O tempo da lamentação, do “trabalha, trabalha negro”, da escravidão, ficou pra trás, já fizemos muito nestes anos. Hoje o tempo é do “vamos à luta”, dando uma olhadinha pra trás só para fazer qualquer correção de rota. Hoje é dia de comemorar. Eu quero ver Tia Eulália dançar.