21/07/2017

Dilema: Como dialogar com a ideia de Deus em tempos de cólera.

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“A paciência foi um dom que Deus me deu e com ela a consciência que sem fé não é possível se viver. Confesso que me deixa irritado quando igreja e mercado se aliam pro poder”.

Esse é um trecho de um rala-coco/ samba que eu compus a mais de dez anos e que faz parte do meu disco "Amigo de fé".
Esses dias li no jornal que ao completar quarenta anos de existência, a Igreja Universal do Reino de Deus tem agora como projeto “investir na classe média”. Quando li isso pensei, os mais pobres já estão “catequizados”.
Por conta disso me lembrei de algumas gravações que participei no Estúdio da Universal, ali na Marechal Floriano. Na época ninguém imaginava os métodos que a igreja usaria para captar fiéis e recursos, muito menos que um dos seus seria Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro. Achávamos que era só a inclusão da prática musical de forma mais profissional na igreja, como já aconteceu com outras igrejas pelo Brasil afora. Já participei de várias gravações em algumas delas.
Me veio também a lembrança do livro “Sermões”,  do Padre José Anchieta, que meu pai, baiano do Candomblé, me deu na infância. Por fim meio me veio à memória os dias em que frequentei a Igreja do Padre Nelson no Cachambi, onde me iniciei no catecismo e no processo para ser coroinha, mas que não foi adiante.
Essa coisa da “catequização” me veio muito na cabeça estes dias em que ações da Prefeitura do Rio se mostram visivelmente perseguidoras da minha religião.
Nos últimos tempos no Brasil  só vimos crescer a perseguição, o ódio e  a intolerância em relação às religiões identificadas  com a África, com os escravos, com os negros.
Negros, samba, Umbanda e Candomblé são seguimentos historicamente perseguidos no Brasil. A Colônia e os colonizados nunca aceitaram essa self com pessoas de vários matizes, consequência inexorável da importação de milhões de seres humanos negros como mão de obra escrava para colônias portuguesas onde os índios locais já experimentavam a presença do invasor.
A escravidão e a tentativa de “limpeza e branqueamento” da população fazem parte até hoje da mentalidade daqueles que preservaram o pensamento escravocrata no Brasil. A catequese e a interpretação ao pé da letra da Bíblia (fundamentalismo) são outros métodos de tentativa de aniquilação de toda uma cultura.
Este projeto já implementado  de poder não fez a menor cerimônia para atingir seus objetivos.
Os catequistas não têm limites, não têm ética, não têm respeito nem compaixão por qualquer outra pessoa ou religião que não seja a que eles praticam.
O que eles têm de sobra é a eficiência de uma campanha difusora de ódio na tentativa de criminalizar e demonizar as religiões que têm como base o culto aos Orixás africanos.
Quer dizer, não basta arrebanhar os “infiéis”, as religiões de origem negra ou índia precisam ser destruídas, exterminadas na alma de seus seguidores.
É uma clara declaração de guerra “santa” que envolve várias táticas que vão desde a colaboração para a expulsão dos terreiros das favelas cariocas até a criação de locais de culto evangélico nas proximidades dos terreiros.
O ataque ostensivo aos praticantes do Candomblé e Umbanda também faz parte, eu já vivi essa pressão uma ocasião quando levava um agrado para Iemanjá na Praia de Botafogo. Outras ocorreram.
Agora estamos assistindo mais um estágio dessa guerra com medidas anunciadas pela Prefeitura.
Ela vem tentando burlar leis, criando as suas próprias, nos deixando em completo estado de estarrecimento. Conseguindo implementar leis absurdas ou não, o fato é que a polêmica, a ofensa, o desconforto e o constrangimento já estão instalados na sociedade carioca.
Na contramão a Unesco promove o tombamento do Valongo. E aí?
Mas o que estará acontecendo lá por cima no Supremo dos Deuses? Parece que Deus está escolhendo pra quem olha. Será que esse Deus existe mesmo? Se ele existe como me ensinaram, e acreditei por muito tempo, porque está de costas para os seres humanos descendentes de africanos, para os índios brasileiros, pros mestiços com sua culturas e crenças não cristãs? Estamos sendo  punidos? Me poupe.
Onde estava este Deus, lá atrás na história, quando milhões foram trazidos da África para serem escravos nas Américas. Onde estava esse Deus quando os judeus foram perseguidos e mortos pelo nazismo? Onde está esse Deus quando vemos a Cidade do Rio de Janeiro no estado que está? De um lado uma prefeitura que desrespeita o estado laico constitucional, do outro a violência do crime, do tráfico de drogas, do comércio de armas e da violência policial que transforma a população pobre em reféns coagidos.
Somos todos iguais perante a Deus? Não é isso o que as religiões pentecostais estão praticando.
Não tá dando pra confiar na justiça dos homens nos últimos tempos e agora fico em dúvida sobre a justiça divina cristã. Por isso entrego meu dilema nas mãos de Olorum, criador do universo, e nas mãos dos Orixás, para que protejam o povo nagô e seus descendentes. Repetindo o que aprendi com um mais velho. Nós não temos inimigos, os que nos perseguem são inimigos dos nossos Orixás.
Do meu tempo de cristão trago o ensinamento: “O homem é feito à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-27). Logo, um homem que ofende outro homem está ofendendo a Deus.